Por Bárbara
Semerene
A palestra "Portal Inovação: instrumento de apoio
Universidade e Empresa no Brasil" foi ministrada por Roberto
Pacheco, pesquisador líder do Instituto Stela, instituição sem
fins lucrativos que visa aplicar engenharia do conhecimento em
projetos que levem ao desenvolvimento social e organizacional
do Brasil. Este instituto foi o responsável por elaborar
o Portal de Inovação, um dos instrumentos essenciais para
estimular a integração entre pesquisadores e empresas. "Este é
um instrumento não só para o setor público, mas também para o
privado. Para que as universidades e empresas brasileiras se
encontrem, num processo de cooperação que gere inovação",
disse Pacheco.
Antes de detalhar o funcionamento do portal, Pacheco fez um
panorama geral sobre o cenário da inovação no Brasil
comparativamente a outros países, definiu o conceito de
inovação, a sua importância, o papel das instituições de
ensino e de pesquisa como geradoras de inovação para o
Brasil.
"O papel da universidade é fundamental na inovação e existe
um cenário novo no Brasil, onde a inovação começa a ser um
tema de Estado, apesar de estarmos 1/4 de século atrás do que
aconteceu nos Estados Unidos", disse Pacheco, que lembrou que
os Estados Unidos começaram com a política de inovação em
1984. Antes disso, havia uma média de menos de 600 patentes
por ano no país. Em 15 anos, o número cresceu para mais 3 mil,
depois do marco regulatório.
Para definir inovação, Pacheco citou quem são os atores e
os fatores que geram inovação. Ou seja: quem está envolvido
com inovação no país e o que faz ser um país inovador. Falou
da Tríplice Hélice, que integra três atores: governo,
universidades (incluindo instituições de pesquisa) e
empresas
O papel do governo é colocar as condições favoráveis para
que haja inovação, ou seja: condições regulatórias,
macroeconômicas, enfim, que permitam que as empresas interajam
com o setor gerador de conhecimento, ou seja, com as
universidades. O papel destas é gerar recursos humanos
qualificados e encubadoras. E as empresas devem levareste
conhecimento para serviços e produtos, envolvendo a sociedade
na economia do conhecimento.
Os indicadores mundiais que mostram o que as nações
desenvolvidas fizeram neste sentido - e o hiato conosco é cada
vez maior - é a capacidade dos países em articular estes três
atores em seu processo inovador. A Organização para Cooperação
e Desenvolvimento dos Estados (OCDE) aprofunda este conceito
para estudar as diferenças das nações. A importância do
sistema educacional de treinamento: se o país não tem
capacidade de formação de bons recursos humanos, ele nunca vai
conseguir ser um país inovador. MAs não basta só isso. aTem
que ter um contexto macroregulatório econômico,
infra-estrutura de comunicação, condições de mercado para
produtos e serviços. E tem que ter capacidade de gerar
conhecimento em clusters empresariais ou em clusters de ensino
e pesquisa.
A OCDE mostra em que distância o Brasil está dos outros. O
que hoje entende sobre inovação, em que pé estamos e para onde
vamos? Por que inovação é importante para o país? "Inovação
não é só importante para a nossa sobrevivência institucional,
mas para que a gente tenha um melhor país. É a inovação que
gera melhores salários, mais e melhores exportações,
crescimento sustentável, promove empregos, melhora o nível de
renda da sociedade. Por fim, a gente só pode alcançar um lugar
nas nações desenvolvidas se nós tivermos inovação", frisou
Pacheco.
O que preocupa, segundo o pesquisador, é o desconhecimento
sobre os instrumentos disponíveis para a inovação. Nos últimos
anos tivemos muitos avanços na área de criação de
instrumentos. Há uma série de incentivos fiscais, mas poucos
sabem que as empresas que contratam mestrandos ou até mesmo
graduandos, têm benefícios fiscais concretos nas suas faturas.
Há também um marco regulatório - a lei de inovação - que traz
uma regra do jogo. E surgiu o conceito de agências de
inovação, organizações que sabem a empresa que tem o problema
e a IES que tem a solução, e realiza o casamento entre esses
atores. Na lei de inovação está prevista a criação dos NITs
(Núcleos de Inovação Tecnológica), que deve estar em todas as
IES e vai definir a política institucional de
propriedade intelectual.
Agora a universidade sabe qual é a sua parcela na
propriedade intelectual, a empresa como disputar isso. E há
uma série de atores além da empresa, da universidade e do
governo, que devem jogar esse jogo da inovação. O maior deles
é cultura. "Precisamos estar abertos à inovação", disse. O
problema é que ainda existe no Brasil um falso antagonismo:
que só se pode fazer pesquisa básica ou aplicada. "Só existe
pesquisa boa. Não existe básica ou aplicada. Esse antagonismo
nos coloca uma visão linear de inovação que é péssimo", disse
Pacheco.
Uma das sugestões das IES para gerar essa cultura de
inovação é que o plano de carreira do professor inclua a
avaliação da excelência tecnológica e da experiência em
corporação. "Talvez seja mais importante para o país neste
momento um professor que trabalhou num projeto tecnológico que
gerou uma patente do que publicar um artigo indexado",
ponderou Pacheco. Espera-se que o governo gerem editais nos
quais o pesquisador só pode participar se tiver em parceria
com uma empresa.
O portal de inovação
O Portal de
inovação foi criado para reunir, numa mesma rede, as demandas
do setor empresarial e as competências do setor acadêmico. Foi
inspirado na experiência do governo baiano que mapeou o que
faziam os grupos de pesquisa da Bahia e as 16 cadeias de
inovação do setor empresarial baiano e criou um portal de
busca de competências dos grupos de pesquisa nas cadeias
produtivas da Bahia.
O Ministério da Ciência e Tecnologia solicitou ao CGE
(Centro de Estudos Estratégicos) que criasse algo assim em
nível nacional. E o fizeram, junto com o Instituto Stela,
usando a plataforma Lates. Há atualmente 750 mil currículos de
pesquisadores no portal, 20 mil grupos de P&D e 1200
empresas. Ali, as empresas pode localizar competências e
oportunidades para inovação, há indicadores estratégicos (os
interesses das empresas em cada região e o perfil que elas
procuram) e uma ferramenta de busca por especialidade e
região. Na página dos especialistas, é possível encontrar
currículo acadêmico e tecnológico, as experiências anteriores
em projetos, e no exterior, e o perfil de cada
um.