Ensaio de orquestra Fonte: FAPESP,
Set/2005 (http://www.revistapesquisa.fapesp.br)
POLÍTICA Inovação
Estados da Região
Sudeste articulam agenda comum para o desenvolvimento
Claudia Izique
São Paulo, Minas Gerais, Rio de
Janeiro e Espírito Santo vão elaborar um plano unificado de
investimentos em ciência, tecnologia e inovação (C,T&I) para a
região. A idéia é firmar acordos de cooperação entre as
secretarias de Ciência e Tecnologia para fomentar a pesquisa e o
desenvolvimento de novos produtos em áreas consideradas
estratégicas, como a de biotecnologia e de agronegócios.
A
idéia de unificação da agenda para o desenvolvimento tecnológico
começou a ser arquitetada durante a Conferência Sudeste de C,T&I
realizada entre os dias 3 e 4 de agosto em Belo Horizonte, quando
cerca de 400 representantes dos quatro estados elaboraram propostas
para a 3ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
agendada para o mês de novembro, em Brasília.
A idéia foi
defendida por Lourival Carmo Mônaco, secretário executivo da
Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de São
Paulo, encampada pelos secretários de Ciência e Tecnologia do Rio de
Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo e apoiada pelo secretário
executivo da 3ª Conferência Nacional, Carlos Aragão. A expectativa é
que, até outubro, a proposta da Região Sudeste esteja detalhada e
chancelada pelos governos estaduais.
Os quatro estados do
Sudeste registram, em conjunto, os maiores porcentuais de gastos em
C&T entre as demais regiões do país. Em 2002, por exemplo, os
dispêndios dos governos estaduais - ainda que fortemente
concentrados em São Paulo - somaram R$ 937 milhões, sem contar o R$
1,3 bilhão repassado por meio dos diversos programas do Ministério
da Ciência e Tecnologia (MCT). A região reúne mais da metade dos
grupos de pesquisa em atuação no país e é responsável por 65% dos
pedidos de patentes depositados no Instituto Nacional de Propriedade
Industrial (INPI) entre 2000 e 2002.
Agenda para o
desenvolvimento - A 3ª Conferência Nacional de C,T&I tem como
tema central o desenvolvimento do país subdividido em cinco grandes
áreas: geração de riqueza, inclusão social, áreas de interesse
nacional, presença internacional e gestão e regulamentação do
conhecimento. Esse temário pautou os debates dos encontros
regionais.
Em Belo Horizonte, as estratégias para o
desenvolvimento tecnológico tiveram lugar de destaque. Houve
consenso de que a Lei de Inovação, quando regulamentada, deverá
contribuir para a criação de um ambiente cooperativo entre as
universidades, os institutos de pesquisa e as empresas - preservadas
as vocações distintas - e resultar no desenvolvimento de novos
produtos. Entre os participantes do encontro também eram positivas
as expectativas em relação aos incentivos previstos na Medida
Provisória nº 252, conhecida como MP do Bem, que desonerou, por meio
de subvenção, a contratação de pesquisadores por empresa e que entra
em vigor no próximo ano.
O baixo nível de investimentos das
empresas em pesquisa e desenvolvimento (P&D), no entanto, poderá
restringir o impacto da Lei de Inovação e da MP do Bem a alguns
setores da atividade econômica. "É mais fácil a universidade ajudar
a empresa que já desenvolve P&D do que aquela que não o faz",
afirmou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.
Avaliado dessa perspectiva, o agronegócio deverá ser um dos
maiores beneficiários da Lei de Inovação, constatou Alberto
Portugal, ex-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa). Nessa área, o Brasil tem liderança
internacional, mas, para manter a posição de destaque, terá que
consolidar a P&D. "O desafio será enorme", lembrou Evaldo
Vilela, reitor da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
"Hoje temos a melhor tecnologia de agricultura tropical, mas
no futuro teremos uma brutal competição no mercado mundial de
fibras, alimentos e madeiras, isso sem falar nas perspectivas de
barreiras crescentes para os produtores."
O sucesso de
qualquer parceria entre as universidades e o setor privado exigirá
que as escolas reavaliem o currículo e incentivem o
empreendedorismo. "Formamos doutores para serem professores, não
formamos pesquisadores com a visão de tecnologia e, sobretudo, não
protegemos o nosso conhecimento. Precisamos de uma mudança radical",
diagnosticou José Arana Varela, pró-reitor de pesquisa da
Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Ainda no âmbito
acadêmico, foi apontada a necessidade de uma maior integração entre
as universidades e as escolas técnicas, a redefinição do trabalho do
tecnólogo, cujo papel é considerado primordial na produção e difusão
de tecnologias, e a liberação de verbas específicas para o
aparelhamento de laboratórios para aprimorar a formação de
profissionais nas áreas tecnológicas.
Institutos de pesquisa
- No encontro de Belo Horizonte, foi sugerida também a "rediscussão
e reavaliação" do papel dos institutos de pesquisas tecnológicas. O
objetivo é buscar novas formas de financiamento para modernizar a
infra-estrutura, criar alternativas para a "reposição" dos recursos
humanos e alocar verbas para a cooperação internacional.
"Precisamos, ainda, de apoio jurídico para negociar contratos e de
avaliação econômica e tecnologias", afirmou Sergio Almeida Cunha
Filgueiras, diretor do Centro de Desenvolvimento de Tecnologia
Nuclear (CDTN), instituto vinculado ao MCT.
Para as
universidades e institutos de pesquisa, a aproximação com o setor
privado colocará novos temas para a pesquisa e, para as empresas,
ajudará na inovação. "Mas, para a inovação crescer, ainda falta
estimular a parceria com investidores, a associação com
empreendedores e o apoio do Estado", lembrou Brito Cruz.
Evando Mirra, presidente do Centro de Gestão de Estudos
Estratégicos (CGEE), anunciou que o MCT prepara o lançamento do
portal Inovação para facilitar a relação entre universidades e
empresas. O portal vai operar com o mesmo modelo da Plataforma
Lattes - um sistema de informações, bases de dados e portais web
voltados para a gestão de Ciência e Tecnologia (C&T) - e terá
como objetivo ampliar a adesão de mais empresas ao processo de
inovação. "Dos 4 milhões de pequenas e médias empresas no país, só 5
mil têm esforço inovador", contabilizou Mirra.
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